Projeto Cultural Farrapos - A Verdade e o Mito

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A Guerra dos Farrapos - por Oberdã Pires

 

Como começou

 

“Hoje os homens lutam por dinheiro, antigamente lutavam por poder, ou por ideal”. E foi por isso que começou a Guerra dos Farrapos.

 Durante anos os gaúchos defenderam as fronteiras do Brasil. E como prêmio receberam o desprezo, impostos exagerados e nenhum poder ideológico e político em sua própria província. A guerra foi inevitável...


Em 1835 os ânimos estavam acirrados. Descontentes com o governo central brasileiro os farroupilhas, como já eram chamados,     Bento Gonçalves da Silva, Gomes Jardim, Onofre Pires, Vicente e Paulino da Fontoura, Antonio de Souza Netto, entre outros, resolveram que algo tinha que ser feito.

 

Depois de muitas conversações, como no dia 18 de setembro de 1835 na casa de Gomes Jardim em Guaíba, os farroupilhas decidiram invadir Porto Alegre e retirar do cargo o presidente da província. No dia 19 de setembro, ao final do dia, conforme tudo estava combinado, Gomes Jardim partiu da Praia da Alegria em Guaíba, acompanhado de sessenta belicosos farrapos em três embarcações e uma tropilha de cavalos com corticeiras amarradas junto ao corpo para que não afundassem. Cruzaram as águas do Guaíba em direção a Porto Alegre, sem saber o glorioso futuro que os aguardava.

 

Na madrugada do dia 20 de setembro de 1835 na ponte da Azenha, aconteceu o primeiro combate. Assim iniciou a Guerra dos Farrapos. No dia 21 de setembro Bento Gonçalves, que em Guaíba aguardava o desfecho da ação, entra triunfalmente em Porto Alegre. Coloca no cargo de presidente o vice Marciano Ribeiro.

 

Bento Gonçalves não imaginava que estava começando uma guerra que duraria dez anos.

 

Até a metade de 1836 os farroupilhas estavam com o controle da situação, quando o império reagiu fortemente e retomou Porto Alegre, obrigando Bento Gonçalves e os farrapos a recuarem para Viamão e estabelecerem um sítio a capital da província, que duraria muitos anos. Os farrapos nunca mais conseguiram retomar Porto Alegre, que inclusive recebeu o titulo imperial de “Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre”.

 

Principal batalha

 

Em 10 de setembro de 1836 aconteceu a principal batalha da Guerra dos Farrapos, a Batalha do Seival.
General Netto e os bravos cavaleiros da 1ª brigada de cavalaria, com um número inferior de soldados, tiveram uma vitória avassaladora sobre as tropas imperiais. E no dia seguinte Netto proclama a República Rio-Grandense e separa o Rio Grande do resto do Brasil, criando um novo país. Agora, já não era mais possível voltar atrás, como se diz em bom gauches: “um boi pra não entrar e uma boiada pra não sair”.  

 

Depois da proclamação, a república precisava de uma capital, e a cidade escolhida foi Piratini. A população aderiu completamente à causa farroupilha.


Um ano após o 20 de setembro os farrapos estavam no auge, até que surge o primeiro revés, a tragédia do Fanfa.
No dia 2 de outubro Bento Gonçalves resolve levantar o sítio à Porto Alegre e se juntar as tropas de Netto na região de Piratini. A maioria dos historiadores entende que foi devido a noticias da proclamação da república por Netto, porém existem aqueles que supõem que Bento não tinha a menor ideia do ocorrido. Na Ilha do Fanfa os farrapos ficaram totalmente cercados pelos imperiais e suas canhoneiras. Se não se entregassem, seria um massacre total. Os farrapos jamais se recuperariam desta derrota, ali se perderam milhares de soldados e grande parte dos oficiais foram presos, entre eles Bento Gonçalves, Onofre Pires, Pedro Boticário e Corte Real. Foram levados presos ao navio Presiganga. E lá, devido a uma discussão sobre o erro militar, Bento e Onofre brigaram a socos, tendo que ser separados pelo oficial inimigo. Ali acendera a primeira faísca de uma rivalidade que não terminaria bem... Os farroupilhas foram levados para uma prisão no Rio de Janeiro. Em pouco tempo alguns oficiais, entre eles Onofre e Corte Real fugiram e Bento não fugiu também por um ato de companheirismo a Pedro Boticário que não conseguiu atravessar uma abertura por ser muito gordo. Pelo acontecido, Bento foi transferido para uma prisão na Bahia, onde depois de alguns meses recebeu de presente um bolo envenenado que matou um cachorrinho companheiro de cela e então resolve que estava na hora de fugir. Bento escapa da prisão, com a ajuda da maçonaria e dos membros da Sabinada, em uma fuga cinematográfica.


Enquanto isso em Piratini, Bento Gonçalves é eleito Presidente da República Rio-Grandense e o vice Gomes Jardim assume interinamente o cargo.


Chega a Piratini um corsário lutador de causas republicanas que havia sido apresentado a Bento na prisão, de posse de um documento assinado pelo presidente Bento, seu nome Giuseppe Garibaldi. Pouco tempo depois, após viajar sempre à noite e disfarçado, Bento Gonçalves chega a Piratini e assume, na prática, a presidência da república.   

 

República Farroupilha em ascensão - vem 1837

 

Vem o ano de 1837 e a república farroupilha segue em ascensão. Domingos José de Almeida organiza as finanças, começam as relações com os países vizinhos, é fundado o jornal “O Povo”. Ideologicamente, administrativamente e militarmente a República Rio-Grandense se solidifica.  O país dos gaúchos estava no auge!


Em 1838 o império do Brasil intensifica sua ação bélica, e os farrapos tomam uma das três principais cidades imperiais, Rio Pardo em um ataque inesperado, que tingiu o chão de vermelho. Aprisionam o maestro Medanha e sua banda, e dele encomendam uma música que se torna o símbolo de nossas façanhas, o Hino Rio-Grandense.


Enquanto Medanha anima os bailes da capital Piratini, os farrapos tentam sem sucesso tomar a cidade portuária de Rio Grande e Porto Alegre. No final do ano o império pressiona, obrigando os farroupilhas a transferirem no começo de 1839 a capital para Caçapava do Sul, em região mais protegida.


Devido à necessidade de um porto, comandados pelo italiano Garibaldi, os farrapos fazem a maior façanha da guerra. Transportam dois navios, sobre juntas de bois, pelo pampa até Tramandaí e rumam mar adentro a Laguna em Santa Catarina. Em julho, tomam Laguna e fundam a República Juliana. Em meio à guerra, acontece a união de Giuseppe e Anita Garibaldi, que o acompanharia até o fim de sua vida.


A república catarinense fica a cargo de dois líderes que não falam a “mesma língua”, o General Canabarro que ao que parece não cumpriu alguns compromissos assumidos com o povo de lá e o sempre preocupado com os ideais de igualdade Luigi Rosseti que escrevera no jornal “O Povo”: “A guerra que sustentamos não é individual, é a da América e do princípio republicano”. Sem o apoio integral da população, em novembro os farrapos perdem Laguna em um ataque maciço dos imperiais.

 

Entra em cena o Duque de Caxias, 1842


O ano de 1840 foi trágico para os farrapos. Em março, Caçapava do Sul é invadida, o arsenal e a tipografia farroupilha são destruídos. A “república” é transportada em carretas de bois pela campanha em direção à Alegrete, futura inóspita capital, quase no além pampa...


Em abril, Netto e Bento reúnem forças do fundo da alma para travar mais um sangrento combate contra os imperiais na Batalha de Taquari, que após horrendas mortes culminou sem vitoriosos.


Em julho Bento, em mais uma tentativa de possuir um porto, ataca São José do Norte. Mas, fazendo jus a sua fama de moderado, não consegue a vitória por se negar a ter uma atitude militarmente correta, porém “politicamente incorreta” que seria atear fogo na cidade.


Em novembro, em uma batalha em Viamão, morre o herói ítalo-rio-grandense Luigi Rosseti. Mais uma derrota.
Os farrapos perderam quase 90% das batalhas deste ano.


Durante o ano de 1841 e em grande parte de 1842 a guerra ficou estagnada.


Em 1842, quando a capital já estava estabelecida em Alegrete, entra em cena pelo lado imperial o Duque de Caxias. Ardiloso, dissimulador, mas muito competente, Caxias começa o “esmagamento da revolta”, através de todos os métodos possíveis e impossíveis.

 

Os farrapos eram guerreiros imbatíveis com seu fiel companheiro, o cavalo! E Caxias prepara seu exército usando as mesmas táticas farrapas. Mas a maior arma do Duque de Caxias, ainda estava por ser usada: a semeadura da cizânia e discórdia...

 
Quando se quebra um elo, o amor termina em duelo...


A guerra dos farrapos não se decidiu nos campos de batalha, ao total foram 118 confrontos, com 59 vitórias para cada lado. Os farrapos perderam a guerra para si mesmos... A intriga, a discórdia, a calúnia, a difamação interna abalou os ideais de liberdade, igualdade e humanidade.


O episódio que seria o ápice destes desentendimentos ocorreu em 1843, o duelo farrapo em que Bento Gonçalves matou seu fraternal irmão em armas, Onofre Pires. “Quando se quebra um elo, o amor termina em duelo”. Caxias conseguiu seu intento, acabando com Onofre terminou com Bento. Após este triste sucedido, Bento participou da batalha em Ponche Verde, que seria a última vitória farrapa, e depois foi se afastando até dar seu último sopro de vida na casa de Gomes Jardim, onde tudo começara, em Guaíba.


Em novembro de 1844, o episódio mais obscuro da guerra dos farrapos. Davi Canabarro, que já tomara a frente nas negociações com os imperiais, após negar ajuda de outros países para vencer a guerra, de forma não esclarecida até hoje, desarma seus soldados antes de pernoitar. Grande parte das forças era formada pelo corpo de lanceiros negros (escravos que lutavam pela promessa de liberdade). Na calada da madrugada foram atacados pelas forças de Chico Moringue. Desarmados, lutaram com todas as forças de suas almas, mesmo depois de desencarnar. Foi o mais cruel massacre já visto por estes pampas. Foram sumariamente exterminados.
 

Paz do Ponche Verde

 

Se me perguntarem se eu acho que foi traição ou não, não saberei responder... Nem os documentos podem nos trazer uma verdade axiomática sobre os fatos ocorridos naquela fatídica noite. O fato é que Caxias estava concluindo seu funesto objetivo.


No final de fevereiro, começo de março de 1845, o incansável Onofre Pires estava morto, Bento estava afastado e caminhando para seu triste fim, Gomes Jardim empobrecendo e tendo que vender suas terras devido a guerra, Garibaldi frustrado havia partido, Luigi Rosseti tombado por uma causa que parece ter defendido ao lado de poucos, Netto inconformado havia partido com muitos bravos companheiros brancos e negros que lutaram ao seu lado em direção ao Uruguai. Restou Canabarro para assinar com Caxias a “Paz de Ponche Verde”. Nossa revolução tinha chegado a seu derradeiro fim...


Ficaram para eternidade, latente em nossos corações os ideais.


Ponche Verde, para alguns acordo de paz, para outros rendição, para outros paz honrosa.


Para mim? Final de uma história sem fim...

 

 

Material de divulgação.

© 2013 Oberdã Pires.                                                                                                                                                                Desenvolvido por WD3 Solutions

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